Publicado por: quedadomuro | Março 16, 2009

Amoklauf – Assassinato em massa

Eu tive que rir, eu tive sinceramente que rir com a maneira em que o assassinato em massa provocado pelo ex-estudante Tim K. foi abordada não só pelo jornalismo brasileiro, mas pelos leitores através de seus comentários deixados em jornais como O Globo, Folha etc.

Conversando com minha mãe pelo MSN ela me fala que um homem entrou em uma universidade da Alemanha e saiu atirando em todo mundo que encontrava pela frente. Mas ela ficou calma ao ouvir que o nome da cidade não tinha nada a ver com a cidade onde moro.

Eu até então não estava sabendo de nada, minha vida nos últimos dias se resume em casa – biblioteca e vice e versa. Mas não contive minha curiosidade em saber onde foi o ocorrido, já que minha mãe não poderia lembrar facilmente o nome da cidade que, até eu que moro aqui, não consigo me lembrar, mas como a Internet é boazinha eu achei no site da Focus: Winnenden.

Não sei se as primeiras informações foram mesmo desencontradas, afinal se aqui na Alemanha eles já não conseguem entrar em consenso nas informações o que dirá quando se pensa no fato de  que há uma parte de continente e um oceano que separa Brasil e Alemanha.

Enfim, o Amoklauf (como eles chamam esses tipos de assassinato em massa aqui) ocorreu numa Realschule. Eu sei que não se pode cobrar demais do jornalismo já que ele deve reduzir a complexibilidade de uma informação, mas para quem tem uma noção de como funciona as escolas na Alemanha, pôde sentir  quão vagas foram as notícias.

A Realschule pode até ser traduzida apenas como uma escola secundária, mas a coisa não é tão simples assim não. Ela é uma escola que tem uma duração de dois anos a menos do que um ginásio (Gymnasium). Os alunos da Realschule não têm o direito de entrar numa universidade a não ser que eles façam um teste para provar que têm um quociente de inteligência compatível com os dos alunos que já o cursa. Só então eles podem cursar o ginásio e no final fazem o Abitur, um exame final cuja nota vai ser analisada pelas Universidades na hora de escolher os novos estudantes.

Mas são poucos os casos de estudantes de uma Realschule que vão para o ginásio, já que durante o curso da Realschule, segundo as informações obtidas por quem já mora aqui há mais tempo do que eu, os professores já preparam os alunos psicológicamente para o ensino técnico e não superior. Da Realschule saem os mecânicos, pedreiros, padeiros, costureiros, cabeleireiros etc.

Existem também escolas alemãs que optam por trabalhar com Realschule  e Gymnasium juntos, ao fim do décimo primeiro ano de estudo os alunos fazem a prova do Realschule, quem quiser parar pára, quem quiser continua para, dois anos mais tarde fazer o Abitur. Essas escolas acreditam que esse modelo é mais democrático, mas elas são ainda uma minoria.

A grande polêmica desse tipo de divisão (se não me engano ainda tem um tipo de escola que se encerra na oitava série, mas não tenho nem muita certeza nem muito tempo para pesquisar sobre isso agora) é que essa seria uma forma de desintegração dos filhos de imigrantes à sociedade alemã. Aí entra outro tema que é a Imigração. Resumindo, após a Segunda Guerra a Alemanha precisou de mão de obra (barata) para reconstruir o país nas indústrias, comércio, reconstrução dos monumentos etc. Dessa forma houve um fluxo muito grande de imigrantes principalmente turcos.

Passados tantos anos os turcos até hoje não se integraram à cultura alemã (ou seriam os alemães que não foram receptíveis?) vivem em suas restritas comunidades, muitos são mulçumanos que têm uma tradição e idealização do mundo totalmente contrária ao ocidentalismo alemão e criam seus filhos nessas comunidades fechadas. Quando as crianças vão para a escola elas passam a ter contato com a cultura alemã aí nascem os milhares de conflitos familiares que enchem o imaginário televisivo da alemanha com os talk shows, séries e  novelas sobre o tema.

Mas voltando a educação, o idioma alemão por si só é  uma barreira na integração pela sua complexibilidade fazendo com que os filhos desses imigrantes não consigam bom rendimento escolar o que os limitam a ter uma formação inferior de uma criança alemã, isso quando eles conseguem continuar na escola.

Okay, eu fugi muito do meu tema, se isso fosse um vestibular já teria perdido muitos pontos na prova, mas então retornemos ao assunto do Post: Amoklauf.

Eu li muitos comentário de pessoas que não tem o mínimo conhecimento sobre a cultura alemã, ou de pessoas que acham que conhecem demais e falam como se o Brasil, apesar de todos os problemas fosse o melhor lugar do mundo para se viver, porque os problemas do Brasil são os políticos que não fazem nada contra a violência mas se não fosse isso o Brasil seria um paraíso onde todas as pessoas viveriam felizes para sempre sem depressão, preocupação, medo e sem um risco de assassinato em massa.

Outros falavam como se o que aconteceu lada não fosse digno de ser retratado no Brasil porque no Brasil morre muito mais gente por dia vítima de criminalidade e ninguém aqui fora noticia. Ora, se você tirar pelo fato de que o jornalismo se guia pela novidade ou atualidade, a criminalidade do Brasil já saiu desse quisito há muito tempo! Já é do cotidiano do brasileiro conviver com assalto, assassinato… Se não o que falar é melhor ficar calado, não acham?!

Li também comentários do tipo, “quanto mais dinheiro as pessoas têm mais infelizes elas são”, como se o rapaz que cometeu esse atentado fosse um milhonário!

Eu mesma não sei de muita coisa, cada dia que passo aprendo mais sobre a Alemanha e seria ridículo cobrar conhecimento dos outros, muito que nem têm condições de vir a Europa, mas as pessoas tem a Internet nas mãos, poderiam buscar um pouco mais sobre o país, ou o jornalismo poderia incentivar um aprofundamento nos temas.

Mas falar que ele tinha tudo como nos muitos comentários que eu li, já é um erro! Só pelo fato de ele ter terminado os estudos numa Realschule já não é motivo para dizer que ele tem tudo que ele quer porque direito ao acesso a uma universidade ele não tinha.

Não quero também aqui dar margem para uma interpreteção incoesa. Isso não significa que um estudante do ginásio não faria isso. É só lembrar do caso de Erfurt em 2002,  um Amoklauf  num Ginásio.

Assassinato em massa pode ocorrer em qualquer lugar, seja num ensolarado Brasil ou numa cinzenta Alemanha, há sempre pessoas perturbadas psicológicamente pelo mundo. Aqui estou vendo uma cobrança muito grande em cima do governo por causa das leis anti-armas, já que a arma usada pelo garota era propriedade do pai, o qual era um colecionador e tinha todas as armas legalmente em casa.  O que não é tão smples de conseguir por aqui, já que depois do caso de Erfurt eles restringiram muito o aceso Às armas, o que não vou detalhar mais aqui para não ficar um Post tão cansativo, mas acho que quem quer cometer uma loucura indepenente das dificuldades, vai dar um jeito de cometer, é só uma questão de tempo.

Ainda não foi publicado  nada concreto sobre os motivos que o teriam levado a cometer o Amoklauf, mas geralmente nesses casos motivo está associado a depressão, talvez problemas familiares, quem sabe? A polícia está atrás dos pais do garoto, a escola volta langsam à sua rotina, a cidade sofre ainda com o que houve e do outro lado do mundo pessoas que não tem nada ver com a história metem seu bedelho e falam pelos cotovelos como se fossem donos da verdade.

Pronto, desabafei!

*esclarecendo, eu fico igualmente P*** da vida quando ouço alguém aqui falando abobrinha do Brasil ou América Latina, só ainda não tenho minha válvula de escape em alemão, mas hei de providenciar uma logo logo…


Respostas

  1. oi Mila, pois é, mas veja assim, eu acho que um ponto é que o brasileiro paga pelo jornalismo sensacionalista, paga para ler o que quer, paga para ler coisas infundadas e não há tanto discernimento crítico – fora que a grande maioria não tem conhecimentos de uma vida na Europa, o que dirá na Alemanha.
    bjo
    udo

  2. Para quem quer entender melhor o sistema alemão de ensino, a Deutsche Welle resume tudo nessa matéria: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,1015639_page_2,00.html

  3. Pois é Udo, eu nao quis parecer dona da verdade ou coisa assim, só esse pensamento brasileiro de achar que todo europeu é rico e nao tem problemas nem motivo pra ser infeliz.

    Dri, muito obrigada pelo link!!!


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